O ACORDO MERCOSUL - Uma trajetória entre N-S que se traduz num marco histórico do comércio internacional
Iniciei a minha carreira diplomática no final da década de 80 e no início da década de 90 fui nomeado para integrar a Representação Permanente de Portugal junto à Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York. Entre outras atribuições como Secretário de Embaixada, foi-me atribuída a tarefa de seguir os trabalhos da Segunda Comissão da Assembleia Geral da ONU, que cobre os Assuntos Económicos e de Meio Ambiente. Já nessa altura discutiam-se assuntos que constituíram a fase embrionária de um importante Acordo de Comércio Internacional entre a então CEE e os principais países da América do Sul. A partir da assinatura do Trado de Maastricht em 1993, a União Europeia retomou essa pauta em 1999. Depois de alguns interregnos, as negociações para o estabelecimento desse Acordo foram reabertas em 2013.
Em Junho de 2019 o tratado e Acordo do Mercosul foi assinado, embora a sua entrada em vigor ficasse pendente até à ratificação do mesmo pelos parlamentos nacionais de cada país da UE, bem como do Parlamento Europeu e Congressos/ Parlamentos dos países do Mercosul. Este Acordo foi negociado para regular o diálogo político, a cooperação e práticas de livre comércio, se configurando também como um acordo de livre comércio. A União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Mercosul. São cinco países membros do Mercosul – Brasil. Argentina, Paraguai, Uruguai e mais recentemente a Bolívia. A UE é composta por 27 países membros.
Na América do Sul, e fruto do esforço de mais de duas décadas de negociações, o Acordo de Parceria Mercosul – União Europeia é certamente um importante resultado dos esforços de expansão da rede de acordos comerciais do Brasil e do MERCOSUL, após as assinaturas dos acordos de livre comércio do MERCOSUL com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), em setembro de 2025, e com Singapura, em dezembro de 2023.
Dada a atual situação geopolítica mundial e seus desafios, é imperativo firmar Acordos com esta dimensão, pois além de trazer importantes resultados comerciais para os países do MERCOSUL em termos de acesso ao mercado europeu e atração de investimentos, o Acordo acelera um ciclo virtuoso de inserção internacional do MERCOSUL, ao ampliar o interesse de terceiros parceiros em negociar entendimentos com o bloco.
Este Acordo integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, que reúnem cerca de 718 milhões de pessoas e cujo Produto Interno Bruto (PIB) é de aproximadamente US$ 22,4 trilhões de dólares. Quando examinado pelo volume de comércio, trata-se, ao mesmo tempo, do maior acordo comercial a ser firmado pelo MERCOSUL e um dos maiores dentre os assinados pela UE. Em termos de população e tamanho das economias envolvidas, é também um dos maiores acordos bilaterais de livre comércio do mundo. Em um contexto internacional de crescente protecionismo e unilateralismo comercial, o Acordo é uma sinalização em favor do comércio internacional como fator para o crescimento econômico.
De acordo com a Agência Brasil, embora celebrado por governos e setores industriais, o acordo ainda enfrenta resistência de agricultores europeus e ambientalistas, que criticam possíveis impactos sobre o clima e a concorrência agrícola. A implementação será gradual e os efeitos práticos devem ser sentidos ao longo de vários anos.
Partes que extrapolam a política comercial, como acordos técnicos, exigirão ratificação nos parlamentos nacionais da EU e Mercosul, o que pode alongar o cronograma e abrir espaço para disputas.
Principais pontos do acordo:
- Eliminação de tarifas alfandegárias
- Redução gradual de tarifas sobre a maior parte dos bens e serviços; • Mercosul: zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos; • União Europeia: eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.
- Ganhos imediatos para a indústria
- Tarifa zero desde o início para diversos produtos industriais. Os setores beneficiados:
- Máquinas e equipamentos; Automóveis e autopeças; Produtos químicos; Aeronaves e equipamentos de transporte.
- Acesso ampliado ao mercado europeu
- Empresas do Mercosul ganham preferência em um mercado de alto poder aquisitivo; UE tem PIB estimado em US$ 22 trilhões; Comércio tende a ser mais previsível e com menos barreiras técnicas.
- Cotas para produtos agrícolas sensíveis
- Produtos como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol terão cotas de importação; acima dessas cotas, é cobrada tarifa; Cotas crescem ao longo do tempo, com tarifas reduzidas, em vez de liberar entrada sem restrições; Mecanismo busca evitar impactos abruptos sobre agricultores europeus; Na UE, as cotas equivalem a 3% dos bens ou 5% do valor importado do Brasil; no mercado brasileiro, chegam a 9% dos bens ou 8% do valor.
- Salvaguardas agrícolas
UE poderá reintroduzir tarifas temporariamente se:
- Importações crescerem acima de limites definidos;
- Preços ficarem muito abaixo do mercado europeu;
- Medida vale para cadeias consideradas sensíveis.
- Compromissos ambientais obrigatórios
- Produtos beneficiados pelo acordo não poderão estar ligados a desmatamento ilegal;
- Cláusulas ambientais são vinculantes;
- Possibilidade de suspensão do acordo em caso de violação do Acordo de Paris.
- Regras sanitárias continuam rigorosas
- UE não flexibiliza padrões sanitários e fitossanitários;
- Produtos importados seguirão regras rígidas de segurança alimentar.
8. Comércio de serviços e investimentos
- Redução de discriminação regulatória a investidores estrangeiros. Avanços em setores como:
- Serviços financeiros;
- Telecomunicações;
- Transportes;
- Serviços empresariais.
- Compras públicas
- Empresas do Mercosul poderão disputar licitações públicas na UE; • Regras mais transparentes e previsíveis.
- Proteção à propriedade intelectual
- Reconhecimento de cerca de 350 indicações geográficas europeias;
- Regras claras sobre marcas, patentes e direitos autorais.
- Pequenas e médias empresas (PMEs)
- Capítulo específico para PMEs;
- Medidas de facilitação aduaneira e acesso à informação;
- Redução de custos e burocracia para pequenos exportadores.
- Impacto para o Brasil
- Potencial de aumento das exportações, especialmente do agro e da indústria;
- Maior integração a cadeias globais de valor;
- Possível atração de investimentos estrangeiros no médio e longo prazo.
- Próximos passos
- Pelo Mercosul, a assinatura do Acordo teve lugar no dia 17 de janeiro, no Paraguai;
- Será necessário a aprovação pelo Parlamento Europeu (data a determinar);
- Ratificação nos Congressos do Brasil, (Comissões de Relações Internacionais e Constituição e Justiça na Câmara e no Senado), da Argentina, Paraguai e Uruguai;
- Entrada em vigor apenas após conclusão de todos os trâmites;
- Acordos que extrapolam política comercial precisam ser aprovados pelos parlamentos de cada país.
Para o Brasil, o Acordo possui um valor estratégico em diversos setores. Com este Acordo, a Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (APEX Brasil) estima que as exportações brasileiras podem se elevar significativamente em US$ 7 bilhões. Tem sido até o momento o segundo fluxo comercial que o Brasil tem com o mundo, só perde para a China e o mais importante é um comércio equilibrado, afirma o Presidente Jorge Viana da APEX Brasil
O Acordo deverá reforçar a diversificação das parcerias comerciais do Brasil, além de fomentar a modernização do parque industrial brasileiro com a integração às cadeias produtivas do bloco europeu.
No que diz respeito a Portugal, de acordo com o Jornal Expresso, o Acordo do Mercosul “é globalmente positivo”, nomeadamente para a agricultura portuguesa, em que se salienta que este pacto “tem mais vantagens do que desvantagens”, mas também “tem riscos” para o setor, acautelados naturalmente com as cláusulas de salvaguarda acima referidas.
O presente Acordo EU-Mercosul, na minha opinião, surge como um grande “presente” para as Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil e em outros países membros da América do Sul. Oferece uma nova oportunidade de negócios e investimentos a todos os Associados, membros dessas Câmaras e fortalece a cooperação entre os dois blocos, estimulando mais parcerias em diversos setores da economia.
Na qualidade de Presidente da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil – Minas Gerais, posso reiterar que a nossa instituição vem apoiando a realização de negócios internacionais desde a sua criação em 1996 e tomará esta oportunidade histórica de abraçar e reforçar um relacionamento privilegiado nas trocas comerciais e de investimento, assumindo um crescente e preponderante papel no estreitamento das relações econômicas entre Minas Gerais, Portugal e a União Europeia, como um todo. Portugal é certamente a porta de entrada na Europa e tem uma localização estratégica que permite o desenvolvimento da internacionalização em relação a toda a União Europeia.
Recentemente, a Câmara Portuguesa de Minas Gerais estabeleceu Representações da Câmara em Portugal, nomeadamente em Lisboa e no Porto, tornando-se parceira da Associação Empresarial Portuguesa (AEP). Esta decisão permitirá no curto, médio e longo prazo um maior fluxo mútuo de negócios, investimentos e comércio entre o estado de Minas Gerais, Brasil e Portugal.
A relação entre as Câmaras de Comércio Portuguesas no estrangeiro e a AICEP Portugal (Comércio Exterior), IAPMEI (Apoio às Pequenas e Médias Empresas), bem como o papel do associativismo da Estratégia Nacional ESG para as PMEs (Pequenas e Médias Empresas) é de extrema importância e um campo a ser desbravado e trabalhado de forma contínua. Reitero que há a necessidade de estabelecer parcerias com instituições de ensino voltadas para a capacitação de agentes e empresários ligados a vários setores da economia, tendo presente a passagem para o modelo de economia circular, que envolve a participação das cadeias de produção, entidades públicas e privadas e os próprios consumidores. Precisamos de um aumento de fluxo comercial, de relações empresariais, apoiando novos negócios e investimentos que venham agregar valor; para isso será imprescindível haver uma mudança de mindset, com a passagem de o modelo de economia linear para o de economia circular.
É sabido, que há setores que serão claramente ganhadores, como o vinho, azeite, frutas e queijos, enquanto segundo alguns o acordo pode ter impacto negativo no setor das carnes, mas que será controlável por vários motivos, entre os quais as cláusulas de salvaguarda.
O Conselho da União Europeia anunciou já a aprovação do acordo comercial com os países do Mercosul. O Acordo UE-Mercosul permitirá aos europeus exportar mais veículos, maquinaria, vinhos e bebidas espirituosas para a América do Sul.
No caso da Mercosul, facilitará a entrada na Europa de carne, açúcar, arroz, mel, soja, para não falar de energia.
No caso específico de Minas Gerais no Brasil, para além de vários produtos acima citados, adiciono ainda minério de ferro e concentrados, óleos brutos de petróleo, indústria de ferro-ligas, carboneto de silício e produtos farmacêuticos.
Este Acordo incorpora compromissos inovadores, equilibrados e coerentes com os desafios do contexto econômico internacional. Em quadro internacional onde ganha centralidade o papel do Estado como indutor do crescimento e promotor da resiliência das economias nacionais, os dois blocos abrem importantes oportunidades para o aumento do comércio e investimentos bilaterais sem deixar de preservar o espaço para a implementação de políticas públicas em áreas como saúde, empregos, meio ambiente, inovação e agricultura familiar.
O MERCOSUL e a UE reconhecem que os desafios do desenvolvimento sustentável devem ser enfrentados por todos, tendo presente as responsabilidades comuns, porém diferenciadas dos países. O Acordo contempla, de forma colaborativa e equilibrada, diferentes compromissos que conciliam o comércio com o desenvolvimento sustentável de maneira efetiva. Valendo-se das sólidas credenciais de sustentabilidade do Brasil, o Acordo fomenta a integração de cadeias produtivas para avançar rumo à descarbonização da economia, além de estimular a concessão de tratamento favorecido para o comércio exterior de produtos sustentáveis. A UE também se compromete a oferecer pacote inédito de cooperação para apoiar a implementação do Acordo.
O Acordo deverá entrar em vigor durante o segundo semestre de 2026, após 26 longos anos de negociação.
Miguel Jerónimo,
Presidente da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil, Minas Gerais.
Fontes: Jornal o Expresso; Portugal, GOV.BR, Agência Brasil
